sábado, 15 de outubro de 2016

O Frade Descalço e a Herege - ...ao amor!

Tal odisseia através de viagem astral foi relatada a todos pela Irmã Eulália, como prévia à reunião que ora se iniciava. Um misto de apreensão e benevolência a todos os médiuns invadia os corações na expectativa de sermos agraciados pela bondade Divina com nova passividade de Fernando. Após o atendimento aos necessitados que aportam em nosso pronto socorro espiritual, em transe Eulália iniciou o seguinte diálogo:

- Por qual motivo esses "pradecos" insistem em minha presença aqui. Já disse e insisto que em mim só haverá paz quando minha vingança contra o Cordeiro se completar. Esse blá blá blá em nada me afeta. Só tenho para vocês ódio, pois destruirei a todos, sem dó e nem pena, desferindo estrondosa gargalhada.

Envolto pelo amor e base doutrinária da Irmã Líria, procedeu-se o seguinte diálogo:

- Querido Irmão, sê bem vindo à nossa Casa de Amor. Sabes que se estás aqui é por causa daqueles que contigo dividiram as dores e alegrias dos dias distantes na Ibéria. O Irmão Alex entende vosso coração inebriado e os motivos, mas não arrazoa suas atitudes desde aqueles escuros dias do Ofício, por isso, tem lhe acompanhado os vossos passos e roga ao Mestre, diariamente, que seu coração se desembriague.

Ao que o Fernando apartou:

- Qual o que? Meus motivos são justos e justo serei em minha vingança contra todos aqueles que professam a Boa Nova. Cada fibra de meu corpo vibra ódio e o ódio me sustenta contra tudo e todos nessa luta. Vingança...vingança...

Ternamente prosseguiu Líria:

- O ódio só nos corrói e nos transforma em algo que na realidade não somos. Olhe-se! Esse ser que representa a monstruosidade é você? Não meu caro Irmão! Somos humanos e a humanidade em nós é representada pelo amor do Pai. Não negues que sentes falta do colo e dos afagos que recebias nos mornos dias primaveris de Toledo. Não negues ainda que, o amor que buscas ofuscar em sua mente é o único que pode ter salvar de ti mesmo, pois teu pensamento só pertence a Ixeya. Vociferando, Fernando apartou:

- Não digas esse nome sua infame! Vingo-me por mim e por ela. Pelo desterro daquilo que ousei sentir e que chamas de amor. Por vê-la tisnar na fogueira. Como pedes a mim que perdoe? Como? Se a última coisa que fitei foram os olhos do meu amor a suplicar-me...Como? 

Líria, como se buscasse inspiração no Mais Alto argumentou:

- Como? Quem questiona somos nós. Como não se dar a oportunidade de reencontrá-la e reiniciar a caminhada sabedor que és das sucessivas vidas? Como paralisar no tempo, sabendo que ela luz e sofre por que não podes vê-la ao seu lado? Como desperdiças diversas oportunidades de amar? Como não te permites que o amor que ora acreditar te enfraquecer é o único sentimento que pode te elevar e fortalecer contra os inimigos interiores? Reflita caro Fernando, reflita! Fernando aparteou:

- Após todos esses anos de contenda, não sou digno de perdão ou mesmo de ser amado... Ao que Líria concluiu:

- Olhe ao seu redor, Caro Fernando. O Irmão Alex se apresenta pronto para te amparar. Sabes que a caminhada será longa até que possas reencontrar Ixeya. Mas o impossível não existe para o amor. Ame-se primeiramente. Viva as vidas necessárias no refazimento do seu corpo espiritual e na harmonização da sua alma. As Leis do Pai a todos oportuniza o reinício e o reencontro. Irmãos para te dar o suporte não faltarão e quem sabe não te reencontres com sua amada quando estiveres novamente na carne?

E fez-se silêncio. O Irmão Germânio que por sua mediunidade clarividente a tudo acompanhava, elucidou-nos que foi realizada a separação fluídica entre Fernando e Eulália e que ao ver o Irmão Alex, Fernando em prantos deixou-se envolver por luz diáfana que emanava do franciscano, sendo aconchegado a seu colo e colocado em maca coberta por lençóis extremamente alvos, onde sono profundo lhe tomou a consciência. Foi então conduzido por Irmãos Fraternos à ala de internação do pronto socorro espiritual, sem perceber que Ixeya, airosa e coberta por leves e esvoaçantes vestes em tom azulíneo, emanava intensa luz safirina enquanto acompanhava aquele cortejo radiante da benevolência, sem que contudo, Fernando não podia divisar a expressão do amor.

Aos Irmãos Fraternos.     
     
                                                  Retrato falado do Irmão Alex.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O Frade Descalçado e a Herege - ...ao ódio.

Após se tornarem uma carne celebrando uma das faces do amor, Fernando percebia um caminho sem retorno à sua religiosidade prática. Não poderia mais ser um monge franciscano naquilo que a acepção da palavra requer: o celibato. Poderia certamente praticar o amor incondicional ao próximo, mas decidido revogou seus votos de fraternidade para viver um sentimento sublime que até então desconhecera.

Tudo corria bem. A felicidade era plena sob sua crença cristã, onde ensinava a Boa Nova na cidadela, atividade que lhe rendia o suficiente para o sustento. Ixeya por sua vez, manipulava ervas e variada gama de ingredientes no fabrico de elixires, unguentos e poções para oferece-los na feira dominical. Essa atmosfera de felicidade, contudo, embotava os olhos de Fernando que não percebia a nuvem escura a espreitar a tudo e a todos - a Inquisição.

Acreditando que defendiam a nobre causa do Cristo, instalou-se desde o Século XV na Espanha, o tribunal sem humanidade, que vilipendiava suas vítimas e não tardou muito, para que ambos fossem acusados de heresia e bruxaria e condenados à fogueira. Dias infinitos foram aqueles para Fernando separado de sua amada Ixeya, misturados de dor, ódio e incompreensão que o fazia questionar-se:

- Como meu Mestre Amado, podes enviar tão cruel sofrimento aos seus filhos se tu mesmo pregastes o amor? Por que esses não entendem seu Evangelhos e nos condenam a tão atroz sofrimento? Amparai-me meu Irmão Sol. Sei que abandonei tua seara, mas sabes do fundo do teu coração do meu amor por ti.

Por vezes blasfemava contra tal sorte e a própria Divindade. Olvidara-se entretanto que as Leis Divinas são inexoráveis e entre elas a de Ação e Reação. Esquecera-se do compromisso assumido antes do retorno ao novo corpo pela benção da reencarnação de aceitar o reparado das faltas passadas. Faltas essas que ambos haviam impingido aos primeiros cristãos nas arenas em remotos tempos romanos. Mesmo envolto nas irradiações e consolos de seus irmãos franciscanos em visitas regulares ao cárcere e nos seus desdobramentos durante o sono, não aceitava sua sorte. Enfim, a pena se cumpriu.

Aportaram ambos no mundo espiritual de forma diferenciada. Ixeya, mais conformada, ao ser recolhida pelos legionários de Francisco aceitou sua sina e buscou o perdão daqueles que tanto havia fazer sofrer no Coliseu romano. Fernando de outro modo revoltou-se e blasfemava:

- Como? Como? Porque tu és tão cruel Deus? Por ser Senhor de nossas vidas Te comprazes em nos fazer sofrer! Como eu te odeio! Por que me fizestes conhecer esse amor que me alimentava por inteiro e em tão pouco tempo o tiraste? E teu filho por quem orei e busquei seguir os passos? Eu os odeio e de tudo farei para que minha vingança contra os teus se concretize!!! E Ixeya? Onde estás meu amor? Não me relegue à solidão, à falta dos seus braços e carinhos. Desgraça...desgraça...

Assim, possesso e envolto em vibrações escuras conjugou-se aos seus iguais por sintonia nas zonas umbralinas. Odiando e buscando no mal o falso remédio de sua cura, esse sentimento se intensifica ao perceber que quando está encarnado, sua amada está no mundo verdadeiro - o espiritual. Assim, amaldiçoa o Cristo e seus seguidores disposto a acabar com sua obra. Entretanto, jamais em qualquer dos planos da vida Fernando logrou ser abandonado por seus pares: o irmãos fraternos franciscanos. Exemplo disso é que finalmente, mesmo que cego pelo ódio, sob as bênçãos do Mestre Jesus foi conduzido ao singelo Pronto Socorro espírita, cujo Mentor é um de seus contemporâneos - o Irmão Alex.

...ainda continua.  

  

   

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Frade Descalço e a Herege - Do amor...

Após breve período de levitação, nos contou Eulália que ela, o Irmão Alex e o Irmão Samuel lograram entrever singela cidade medieval caracterizada por ruas, ruelas e becos de pedras, a exemplo das suas construções. E como espectadora ela nos narrou a seguinte história:

- Interessante Mosteiro Franciscano observei em terreno mais alto, como se guardasse toda a cidadela. Pude perceber diversos irmãos em oração e entre eles, o Irmão da passividade da noite anterior. Assemelhava-me ser manhã, pois ao encerrarem o dejejum e as orações matinais, o referido Irmão saiu para uma breve caminhada pelas ruas da cidade.

- Não demorou muito tempo para ele se deparar com uma espécie de feira livre, onde tinham barracas diversas que ofertavam de tudo, desde animais vivos, frutos, legumes até raízes medicamentosas. Ao passar em frente de uma dessas tendas foi tomado por emoção ainda para ele desconhecida. Ao ver belíssima jovem que ofertara poções sentiu como se seu coração lhe saltasse da cavidade torácica. Mãos gélidas, taquicardico e transpirando respirou fundo tentando vencer sua timidez e respondeu:

- Não, obrigado minha Senhora.

Reciprocamente, o mesmo sentimento invadiu a jovem manipuladora de poções. Plebeia acostumada com pessoas de fisionomia e tratos rudes, admirou-se profundamente pelos olhos castanhos, nariz afiliado, rosto simétrico e pela clara, extremamente alva daquele jovem franciscano e afirmou:

- Pois quando precisardes de qualquer poção, sempre estarei aqui... sempre para atende-lo, Padre...?

O sorriso fácil invadiu os lábios daquele seguidor do Poverello de Assis e sentindo-se aconchegado pelo sentimento emanado por aquela linda pítia, respondeu:

Fernando. Fernando, minha senhora...?

- Ixeya, caro franciscano. 

Desde esta data, após as orações dominicais Fernando seguia para a praça Del Ayuntamento onde as barracas se ladeavam a fim de tecer conversas dos mais amplos matizes com a linda Ixeya. Dia porém, a formosa jovem convidou-o a conhecer seus aposentos e mostrar-lhe o local e os ingredientes que ela, tão sabiamente, manipulava. Fernando concordou de pronto e ao adentrar humilde casebre de dois cômodos percebeu sobre mesa rústica diversas vasilhas com líquidos de cores variadas e jocosamente perguntou:

- Você também faz poções de amor? Ao que Ixeya respondeu:

- Sim, é a mais solicitada. E completou sorridente: Mas, o Padre está precisando? brincando ela com o jovem religioso.

- Não, não. Respondeu Fernando sorridente e após um longo suspiro buscou forças em seu sentimento e completou: Você não percebe que eu já estou totalmente apaixonado e que nenhuma poção fará meu sentimento ser mais infinito do que agora? Não vês que me vejo tomado por você desde a interminável hora que a vi pela primeira vez? Será que minha amada e sagaz pitonisa que de tudo sabe e vê do futuro, ainda não se apercebeu que sou seu escravo preso por elos que nem o fogo poderá separar? Com os olhos verdes a brilharem como gotas em um oceano radiosamente cintilante Ixeya também permitiu seu coração confessar:

- Meu amor...meu amor. Como eu, tão forte, posso ser presa mansa sob seu olhar? Como tudo de feio se torna belo ao seu lado? Como a desesperança no futuro se transforma em certeza de paz e felicidade ao teu lado? Eu também te amo, e amo como se pode ser infinito esse sentimento sagrado.

Desse modo, estava selado por um beijo o reencontro carnal. Certamente alinhavado pelas Inteligências Superiores quando da programação reencarnatória de ambos, ali se iniciava um grande ciclo de encontros e desencontros nas diversas idas e vindas nesses planeta de provas e expiações. 

Continua...