Após se tornarem uma carne celebrando uma das faces do amor, Fernando percebia um caminho sem retorno à sua religiosidade prática. Não poderia mais ser um monge franciscano naquilo que a acepção da palavra requer: o celibato. Poderia certamente praticar o amor incondicional ao próximo, mas decidido revogou seus votos de fraternidade para viver um sentimento sublime que até então desconhecera.
Tudo corria bem. A felicidade era plena sob sua crença cristã, onde ensinava a Boa Nova na cidadela, atividade que lhe rendia o suficiente para o sustento. Ixeya por sua vez, manipulava ervas e variada gama de ingredientes no fabrico de elixires, unguentos e poções para oferece-los na feira dominical. Essa atmosfera de felicidade, contudo, embotava os olhos de Fernando que não percebia a nuvem escura a espreitar a tudo e a todos - a Inquisição.
Acreditando que defendiam a nobre causa do Cristo, instalou-se desde o Século XV na Espanha, o tribunal sem humanidade, que vilipendiava suas vítimas e não tardou muito, para que ambos fossem acusados de heresia e bruxaria e condenados à fogueira. Dias infinitos foram aqueles para Fernando separado de sua amada Ixeya, misturados de dor, ódio e incompreensão que o fazia questionar-se:
- Como meu Mestre Amado, podes enviar tão cruel sofrimento aos seus filhos se tu mesmo pregastes o amor? Por que esses não entendem seu Evangelhos e nos condenam a tão atroz sofrimento? Amparai-me meu Irmão Sol. Sei que abandonei tua seara, mas sabes do fundo do teu coração do meu amor por ti.
Por vezes blasfemava contra tal sorte e a própria Divindade. Olvidara-se entretanto que as Leis Divinas são inexoráveis e entre elas a de Ação e Reação. Esquecera-se do compromisso assumido antes do retorno ao novo corpo pela benção da reencarnação de aceitar o reparado das faltas passadas. Faltas essas que ambos haviam impingido aos primeiros cristãos nas arenas em remotos tempos romanos. Mesmo envolto nas irradiações e consolos de seus irmãos franciscanos em visitas regulares ao cárcere e nos seus desdobramentos durante o sono, não aceitava sua sorte. Enfim, a pena se cumpriu.
Aportaram ambos no mundo espiritual de forma diferenciada. Ixeya, mais conformada, ao ser recolhida pelos legionários de Francisco aceitou sua sina e buscou o perdão daqueles que tanto havia fazer sofrer no Coliseu romano. Fernando de outro modo revoltou-se e blasfemava:
- Como? Como? Porque tu és tão cruel Deus? Por ser Senhor de nossas vidas Te comprazes em nos fazer sofrer! Como eu te odeio! Por que me fizestes conhecer esse amor que me alimentava por inteiro e em tão pouco tempo o tiraste? E teu filho por quem orei e busquei seguir os passos? Eu os odeio e de tudo farei para que minha vingança contra os teus se concretize!!! E Ixeya? Onde estás meu amor? Não me relegue à solidão, à falta dos seus braços e carinhos. Desgraça...desgraça...
Assim, possesso e envolto em vibrações escuras conjugou-se aos seus iguais por sintonia nas zonas umbralinas. Odiando e buscando no mal o falso remédio de sua cura, esse sentimento se intensifica ao perceber que quando está encarnado, sua amada está no mundo verdadeiro - o espiritual. Assim, amaldiçoa o Cristo e seus seguidores disposto a acabar com sua obra. Entretanto, jamais em qualquer dos planos da vida Fernando logrou ser abandonado por seus pares: o irmãos fraternos franciscanos. Exemplo disso é que finalmente, mesmo que cego pelo ódio, sob as bênçãos do Mestre Jesus foi conduzido ao singelo Pronto Socorro espírita, cujo Mentor é um de seus contemporâneos - o Irmão Alex.
...ainda continua.
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