Após breve período de levitação, nos contou Eulália que ela, o Irmão Alex e o Irmão Samuel lograram entrever singela cidade medieval caracterizada por ruas, ruelas e becos de pedras, a exemplo das suas construções. E como espectadora ela nos narrou a seguinte história:
- Interessante Mosteiro Franciscano observei em terreno mais alto, como se guardasse toda a cidadela. Pude perceber diversos irmãos em oração e entre eles, o Irmão da passividade da noite anterior. Assemelhava-me ser manhã, pois ao encerrarem o dejejum e as orações matinais, o referido Irmão saiu para uma breve caminhada pelas ruas da cidade.
- Não demorou muito tempo para ele se deparar com uma espécie de feira livre, onde tinham barracas diversas que ofertavam de tudo, desde animais vivos, frutos, legumes até raízes medicamentosas. Ao passar em frente de uma dessas tendas foi tomado por emoção ainda para ele desconhecida. Ao ver belíssima jovem que ofertara poções sentiu como se seu coração lhe saltasse da cavidade torácica. Mãos gélidas, taquicardico e transpirando respirou fundo tentando vencer sua timidez e respondeu:
- Não, obrigado minha Senhora.
Reciprocamente, o mesmo sentimento invadiu a jovem manipuladora de poções. Plebeia acostumada com pessoas de fisionomia e tratos rudes, admirou-se profundamente pelos olhos castanhos, nariz afiliado, rosto simétrico e pela clara, extremamente alva daquele jovem franciscano e afirmou:
- Pois quando precisardes de qualquer poção, sempre estarei aqui... sempre para atende-lo, Padre...?
O sorriso fácil invadiu os lábios daquele seguidor do Poverello de Assis e sentindo-se aconchegado pelo sentimento emanado por aquela linda pítia, respondeu:
- Fernando. Fernando, minha senhora...?
- Ixeya, caro franciscano.
Desde esta data, após as orações dominicais Fernando seguia para a praça Del Ayuntamento onde as barracas se ladeavam a fim de tecer conversas dos mais amplos matizes com a linda Ixeya. Dia porém, a formosa jovem convidou-o a conhecer seus aposentos e mostrar-lhe o local e os ingredientes que ela, tão sabiamente, manipulava. Fernando concordou de pronto e ao adentrar humilde casebre de dois cômodos percebeu sobre mesa rústica diversas vasilhas com líquidos de cores variadas e jocosamente perguntou:
- Você também faz poções de amor? Ao que Ixeya respondeu:
- Sim, é a mais solicitada. E completou sorridente: Mas, o Padre está precisando? brincando ela com o jovem religioso.
- Não, não. Respondeu Fernando sorridente e após um longo suspiro buscou forças em seu sentimento e completou: Você não percebe que eu já estou totalmente apaixonado e que nenhuma poção fará meu sentimento ser mais infinito do que agora? Não vês que me vejo tomado por você desde a interminável hora que a vi pela primeira vez? Será que minha amada e sagaz pitonisa que de tudo sabe e vê do futuro, ainda não se apercebeu que sou seu escravo preso por elos que nem o fogo poderá separar? Com os olhos verdes a brilharem como gotas em um oceano radiosamente cintilante Ixeya também permitiu seu coração confessar:
- Meu amor...meu amor. Como eu, tão forte, posso ser presa mansa sob seu olhar? Como tudo de feio se torna belo ao seu lado? Como a desesperança no futuro se transforma em certeza de paz e felicidade ao teu lado? Eu também te amo, e amo como se pode ser infinito esse sentimento sagrado.
Desse modo, estava selado por um beijo o reencontro carnal. Certamente alinhavado pelas Inteligências Superiores quando da programação reencarnatória de ambos, ali se iniciava um grande ciclo de encontros e desencontros nas diversas idas e vindas nesses planeta de provas e expiações.
Continua...