terça-feira, 9 de agosto de 2011

O Vale das Sombras


Depois de um dia intenso de trabalho, tarefas do lar e diálogo familiar, Eulália prepara-se para o sono reparador, tão necessário ao corpo físico, quiçá para o espírito, que mesmo liberto das amarras da matéria por vezes sente a necessidade do descanso. Entretanto, naquela noite de paz e serenidade no aconchego do lar, Eulália nem imaginava o que a aguardava em horas do sono profundo.

Como de costume, a prece com elevação às regiões angelicais, onde Maria de Nazaré é lembrada pela sublime missão de advogada nossa, Eulália adormece. Com o auxílio de Samuel, anjo protetor de todas as horas, irmão de muitas jornadas, ela levemente deixa o corpo físico. Já no plano astral depara-se com a missão, junto com Nalu, de resgatar do Vale das Sombras, o irmão Tertuliano, que, incumbido de levar alento aos necessitados e desprovidos do conhecimento da lei de amor, perdeu-se nas energias ilusórias daqueles irmãos.

De posse de todas as informações, Eulália e Nalu, seguidas pelo imperceptível Samuel, seguem a rota obscura, estreita e tenebrosa até o Vale. Ao longe, se podia observar, as construções mal acabadas, de tons terra e engendradas conforme o número de habitantes. A atmosfera era tão pesada que mal dava para respirar, já que a sensação desértica misturava-se ao pó que vinha das alamedas estreitas.

Observadas por olhos curiosos, as duas entraram numa habitação que mais parecia um labirinto de corredores com passagem para os mais diversos recintos, apenas resguardados por cortinas velhas e empoeiradas. Nalu, com determinação e coragem, de uma a uma, levantava aqueles trapos em busca de Tertuliano... os farrapos humanos comidos por feridas fétidas, olhavam com olhos de desespero, angústia ou de contentamento por aquela vida transformada pelos pensamentos e atitudes menos nobres.

Depois de alguns minutos sem sucesso na operação, as duas missionárias intuitivamente, orientadas por Samuel, seguiram por ladeira íngreme com a notícia do paradeiro de Tertuliano. No céu acinzentado por densa poluição, sobrevoava animais alados monstruosos que mais pareciam gárgulas a espreita de alguma situação. A tapera, que mais parecia um amontoado de barro, abrigava família que há anos não sabia o que era luz, portanto, cegos diurnos e de conhecimento. Enfraquecido pelo ambiente e pela doação de passes magnéticos aos infelizes, Tertuliano carecia de ajuda para o retorno, já que o ambiente psíquico, cheio de germes, trazia mal estar para o corpo astral.         

Tertuliano foi retirado pelos braços amorosos de Samuel, libertando-o das energias malfazejas. Juntos, Eulália, Nalu e Samuel, guiados pelo amor maior que vem do mais alto, seguiram rumo a saída da cidade em preces comoventes, rogando a Jesus que um dia o amor prevalecesse e que aquelas almas perdidas na ignorância pudessem ser resgatas e levadas às colônias benevolentes para que, com o processo misericordioso da reencarnação, recebessem a ditosa missão de evoluir.  

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