Quem pode imaginar uma jovem, de apenas 17 anos, ter tantas histórias para contar numa vida tão curta? De beleza serena, terna e doce, ela chamava atenção de todos que a circundavam, principalmente a dos homens, pela atração física que exercia. Olhos castanhos amendoados sempre distantes e, com um quê de tristeza, pairavam sobre o tempo. Ninguém sabia explicar o tom de vida daquela moça dada a melancolia.
Soraia sempre foi uma criança pacata e tímida. Desde sua infância sempre alimentou histórias de que havia um homem que a perseguia em seus sonhos e, como toda criança a “mente criativa” era sempre a desculpa dada pelos pais para as narrativas ilusórias, não observando a importância do fato para o desenrolar de suas vidas.
Com pais em constantes desajustes, egoístas na forma de pensar e agir, Soraia cresceu em ambiente poluído e sujo pelos pensamentos menos edificantes. O desequilíbrio emocional imperava na vida daquelas pessoas e o principal elemento para uma vida saudável estava muito longe: o amor.
A única coisa que de melhor restava era o carinho da vó Sinoca que em seu aconchego diminuía as tristezas e depressão. Esse, talvez, fosse seu único momento de paz interior, necessidade sentida pelos pais ausentes. Sinoca era senhora de pouco estudo, mas de grande conhecimento da vida. Sentia muito pelo seu filho único ser um pai ausente e por uma nora orgulhosa e materialista que vivia de futilidades. Sabia da tristeza da neta, mas não imagina a extensão do problema que vinha de atitudes passadas e mal resolvidas em nossas várias existências. Para Sinoca restava-lhe, diante daquele quadro, preces sublimes enviadas a mãe santíssima e ao seu filho Jesus.
Assim Soraia cresceu e a cada ano que passava as “alucinações” só aumentavam e o recolhimento interior era sua principal arma para o que, no seu entendimento, o que melhor tinha a fazer. O tal moço era seu grande tormento e as noites tornavam-se intermináveis e de sofrimento. Era sempre a mesma situação, ao adormecer escutava gritos de horror e uma mão sempre estendida, convidava-a para o caminho mais obscuro da mente humana. Uma força, sobremaneira forte, atraia para aqueles braços...
Ao acordar, Soraia sempre tinha as mesmas sensações: medo, dor e repugnância daquilo que sua mente, em vigília, já não mais lembrava. Quem era aquele homem? O que acontecia? Porque uma moça tão jovem estava a beira da loucura? E as preces da vó Sinoca não ajudavam?
Os anos se arrastavam para Soraia e a pressão só aumentava a cada dia. Os remédios receitados pelos médicos já não faziam o efeito esperado, afinal de contas, o que estava doente? A medicina terrena ainda engatinha na ótica da cura corpo/espírito e muito ainda irá contribuir para as mazelas da humanidade quando da descoberta de que não somos apenas um corpo de carne.
Dia após dia, a tormenta crescia em seu íntimo e aos 17 anos, no arroubo de livrar-se das obsessões da mente adoecida, Soraia comete o pior ato de fuga: o suicídio. Nem em seus pensamentos mais longínquos e pouco lúcidos podiam imaginar que com aquela ação impensada fosse apenas o começo do que de pior iria experimentar, seus dramas estavam apenas começando...
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