O desencarne de Soraia foi doloroso, tanto quanto para os que são apegados a matéria. Apesar dos apelos amorosos de sua avó Sinoca, a vida após morte, tão intensa como na terra, também é carregada de carga energética pesada. Para Soraia não iria ser diferente, afinal de contas, tudo é plantado nas nossas encarnações e colhido, muitas vezes, do outro lado da vida.
Ao chegar no orbe espiritual, denso, sofrido, ruidoso, Soraia passou pelas piores dores e sofrimentos. Tirar a própria vida é um ato insano com consequências devastadoras.
Passados os anos que mais pareciam a eternidade, Soraia foi levada pelos espíritos que se comprazem no mal, irmãos dominadores de esquemas das bebidas alucinógenas, sexo fácil e esdrúxulo e o poder ilusório. A troca de favores no mundo espiritual inferior é moeda forte para os grupos que buscam na vingança a “felicidade” pelas traições sofridas outrora.
Na erraticidade, Soraia toma conhecimento que o homem que a perseguia em seus sonhos quando encarnada, era real e, mais real, eram seu ódio e fúria nutridos por aquela bela moça. Quem era aquele homem ao qual foi entregue por aqueles que a acorrentavam? Porque ele a queria como escrava?
A resposta estava nas muitas idas e vindas da escola terrena. Em uma dessas vidas, Soraia, então Amália do Canto Vaz conheceu Antenor, homem feio para os padrões sociais de beleza, franzino, cabelos ralos e nariz romano é desses que perdem o precioso tempo na roda da vida, cheia de realizações positivas, mas ofuscada pelo orgulho, vaidade e principalmente pelo egoísmo, sentimentos que certamente não deveriam ser a tônica da vida, ou quando menos, atrofiados e extinguidos da nossa existência, mas isso é outra história...
Por muitas encarnações, Soraia foi o grande amor de Antenor, no entanto, muitas delas não correspondido. Mas as tramas do destino, tão necessárias para o aprendizado e crescimento, trouxe para Antenor a amarga vivência com Amália (era o amor do Pai favorecendo o aprendizado de ambos). Desposou-a, mesmo sabendo não ser amado. Comprou sua felicidade dando-lhe mimos e luxos almejados pelas moças da região, já que o trabalho duro de anos trouxe-lhe riqueza e poder.
Anos pagando os caprichos daquela bela mulher, humilhado pela falta de amor e traído pelos arroubos da juventude de sua esposa, Antenor não resiste ao ódio e ao ciúme exacerbado e reafirma a vida construída na ilusão através do assédio moral e material sobre sua mulher. Trancada em um quarto sem qualquer comunicação com o mundo lá fora, insalubre e lúgubre, Amália saiu da vida de riqueza e futilidades para o inferno em vida.
A vitalidade da juventude deu lugar ao rosto cansado e sofrido sugado por aquele que a amava e jurava amor eterno. Anos trancafiada, mal alimentada e objeto de sexo indesejado trouxe a ela a doença da alma, a melancolia, o desamor. Enfraquecida e sem vontade de viver, Amália feneceu nos braços de Antenor que naquele momento não sabia qual era o verdadeiro sentimento: o da vingança ou da perda do seu amor.
Após a morte de Amália, Antenor tornou-se cada vez mais amargo e sem sentimentos. Trazia em sua mente o ódio por aquela mulher para quem dedicou tanto amor e carinho e dela só recebeu desprezo. E pelas portas da bebida e acompanhado pelos irmãos infelizes que se acoplam no mal, Antenor passou também pelas portas da morte, percebendo que a vida continua e que sua vingança podia ser “eterna”. Assim, o reencontro no mundo espiritual de Amália (Soraia) e Antenor margeou o constrangimento e a dor da humilhação... (continua).
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